Custo humano oculto da inclusão: sujeitos neurodivergentes, sobrecarga familiar e repercussões na trajetória educacional no contexto das políticas de inclusão
DOI:
https://doi.org/10.54899/dcs.v23i88.5082Palavras-chave:
Educação Inclusiva, Neurodivergência, Sobrecarga Familiar, Trajetórias EducacionaisResumo
A ampliação das políticas de educação inclusiva tem sido apresentada como um avanço civilizatório fundamental, orientado pelos princípios do direito à educação, da equidade e do reconhecimento da diversidade humana. No entanto, embora tais políticas tenham contribuído para o acesso de sujeitos neurodivergentes aos espaços escolares, diferentes estudos vêm evidenciando que sua implementação ocorre, muitas vezes, em contextos marcados por limitações estruturais, ausência de suporte institucional adequado e fragilidades na formação docente. Nesse cenário, a inclusão, frequentemente celebrada no plano normativo, passa a produzir tensões no cotidiano escolar e familiar, revelando dimensões pouco visibilizadas, entre elas, o custo humano oculto que recai sobre os próprios estudantes neurodivergentes e, de maneira significativa, sobre suas famílias. Partindo dessa problemática, o presente estudo tem como objeto de análise as implicações psicossociais, educacionais e familiares da inclusão de sujeitos neurodivergentes no contexto das políticas públicas educacionais brasileiras, com ênfase nas formas de sobrecarga vivenciadas pelas famílias e nas repercussões dessas dinâmicas na trajetória escolar dos estudantes. Diante disso, a pesquisa orienta-se pela seguinte pergunta de partida: em que medida as políticas de inclusão educacional, ao serem implementadas em contextos de insuficiência estrutural e apoio institucional limitado, contribuem para a produção de um custo humano oculto que se expressa na sobrecarga familiar e na reconfiguração das trajetórias educacionais de sujeitos neurodivergentes? Teoricamente, fizemos uso dos trabalhos de Ainscow, Booth e Dyson (2006), Angela Davis (2017; 2018), Apple (2011; 2019), Armstrong (2011; 2012; 2017), Arthur e Carly Fleischmann (2012), Attwood (2008), Ball (2005; 2008), Barnes e Mercer (2006), Beardon (2021), Black-Hawkins, Florian e Rouse (2007), Booth e Ainscow (1998), Dardot e Laval (2016), Davis (1995; 2017), Dawn (2021), Dowling (2021), Elson (1979; 1991), Engster (2007), Federici (2012; 2019; 2021), Folbre (2001; 2010a; 2010b), Fonseca (2004), Fraser (1997; 2020), Freire (2014a; 2014b; 2014c), Garland-Thomson (1997; 2009), Gilligan (2009; 2013), Goffman (2006), Goodley (2014), Grandin (2006), Grandin e Panek (2013), Held (2005), Higashida (2007), Hochschild (1985; 2012), Honneth (2003; 2015), Kittay (2019), Kittay e Carlson (2010), Linton (2020), Malhotra e Rowe (2013), Mantoan (2003), Morris (1991; 1993), Nolen-Hoeksema (2020), Oliver (2009), Paul, Pelphrey, Volkmar e Rogers (2014), Perspectives on Inclusive Education (2015), Prizant (2016), Robison (2008; 2011), Roulstone e Barnes (2005), Saviani (2008; 2011), Shakespeare (2013; 2018), Siebers (2008), Silberman (2015), Singer (2016), Szatmari (2004), Tronto (1993; 2013), Walker (2021), entre outros. A pesquisa é qualitativa (Minayo, 2007), bibliográfica e descritiva (Gil, 2007) e com o viés analítico compreensivo (Weber, 1949). Os resultados evidenciam que, em contextos de insuficiência estrutural, as políticas de inclusão tendem a deslocar responsabilidades para as famílias, produzindo sobrecarga material, emocional e organizacional no cotidiano. Constatou-se, ainda, que essa dinâmica repercute diretamente nas trajetórias educacionais de sujeitos neurodivergentes, gerando permanência com dificuldades, aprendizagem limitada e experiências de exclusão interna. Desse modo, os achados indicam que a inclusão, quando não acompanhada de suporte institucional efetivo, contribui para a produção de um custo humano invisibilizado que atravessa dimensões escolares, familiares e subjetivas.
Downloads
Referências
AINSCOW, M.; BOOTH, T.; DYSON, A. Improving schools, developing inclusion. London: Routledge, 2006.
APPLE, M. W. Educating the “right” way: markets, standards, God, and inequality. 2. ed. New York: Routledge, 2011.
APPLE, M. W. Ideology and curriculum. 4. ed. New York: Routledge, 2019.
ARMSTRONG, T. Multiple intelligences in the classroom. 4. ed. Alexandria: ASCD, 2017.
ARMSTRONG, T. Neurodiversity in the classroom. Alexandria: ASCD, 2012.
ARMSTRONG, T. The power of neurodiversity: unleashing the advantages of your differently wired brain. Cambridge: Da Capo Press, 2011.
ARTHUR, S.; FLEISCHMANN, C. Carly’s voice: breaking through autism. New York: Touchstone, 2012.
ATTWOOD, T. The complete guide to Asperger’s syndrome. London: Jessica Kingsley, 2008.
BALL, S. J. Education policy and social class: the selected works of Stephen J. Ball. London: Routledge, 2005.
BALL, S. J. The education debate. Bristol: Policy Press, 2008.
BARCELLOS JÚNIOR , W. et al. “O pai oculto” – a presença-ausência da figura paterna e os desafios emocionais na interseção entre autismo, família e escola. ARACÊ, [S. l.], v. 7, n. 10, p. e9148, 2025. DOI: 10.56238/arev7n10-219. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/9148. Acesso em: 27 fev. 2026.
BARCELLOS JÚNIOR, W. Escola, neurodiversidade e inclusão – uma compreensão do TEA, TDA e Dislexia como singularidades que exigem práticas pedagógicas inclusivas, responsivas e sensíveis às diferenças. ERR01, 11(1), e11647 Disponível em: https://doi.org/10.56238/ERR01v11n1-007 Acesso em 27 fev. 2026.
BARNES, C.; MERCER, G. Independent futures: creating user-led disability services in a disabling society. Bristol: Policy Press, 2006.
BEARDON, L. Autism and Asperger syndrome in adults. London: Sheldon Press, 2021.
BLACK-HAWKINS, K.; FLORIAN, L.; ROUSE, M. Achievement and inclusion in schools. London: Routledge, 2007.
BOOTH, T.; AINSCOW, M. From them to us: an international study of inclusion in education. London: Routledge, 1998.
DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
DAVIS, A. Y. A liberdade é uma luta constante. São Paulo: Boitempo, 2018.
DAVIS, A. Y. Freedom is a constant struggle. Chicago: Haymarket Books, 2017.
DAVIS, A. Y. Women, race and class. New York: Vintage Books, 1995.
DAWN, S. Autism and education. London: Routledge, 2021.
DOS SANTOS, A. N. S. et al. Da aflição e aceitação às teias de afetos – TEA e laços familiares na construção de pontes para a inclusão e o desenvolvimento infantil. ARACÊ, [S. l.], v. 7, n. 1, p. 1799–1821, 2025. DOI: 10.56238/arev7n1-107. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/2800. Acesso em: 27 fev. 2026.
DOS SANTOS, C. A. G. et al. Neurodiversidade, escola e relações intrafamiliares: TDAH e altas habilidades como singularidades do neurodesenvolvimento que demandam práticas pedagógicas inclusivas e articulação entre escola e família. ARACÊ, [S. l.], v. 8, n. 3, p. e12393, 2026. DOI: 10.56238/arev8n3-003. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/12393. Acesso em: 27 fev. 2026.
DOWLING, M. Young children’s personal, social and emotional development. London: Sage, 2021.
ELSON, D. Male bias in the development process. Manchester: Manchester University Press, 1991.
ELSON, D. The value of women’s work. London: Women’s Press, 1979.
ENGSTER, D. The heart of justice: care ethics and political theory. Oxford: Oxford University Press, 2007.
FEDERICI, S. Calibã e a bruxa. São Paulo: Elefante, 2019.
FEDERICI, S. O patriarcado do salário. São Paulo: Boitempo, 2021.
FEDERICI, S. Revolution at point zero. Oakland: PM Press, 2012.
FELIPPE, J. N. de O. et al. Itinerários escolares de adultos com TEA no Brasil – uma análise inédita dos dados do censo 2022 sobre frequência em instituições escolares entre pessoas com autismo acima dos 25 anos. OBSERVATÓRIO DE LA ECONOMÍA LATINOAMERICANA, 23(8), e10941. Disponível em: https://doi.org/10.55905/oelv23n8-015 Acesso em 27 fev. 2026.
FLICK, U. Introdução à metodologia de pesquisa: um guia para iniciantes. Porto Alegre: Penso, 2013.
FOLBRE, N. Greed, lust and gender: a history of economic ideas. Oxford: Oxford University Press, 2010a.
FOLBRE, N. The invisible heart: economics and family values. New York: New Press, 2001.
FOLBRE, N. Valuing children: rethinking the economics of the family. Cambridge: Harvard University Press, 2010b.
FONSECA, V. Introdução às dificuldades de aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2004.
FRASER, N. Justice interruptus: critical reflections on the “postsocialist” condition. New York: Routledge, 1997.
FRASER, N. The old is dying and the new cannot be born. London: Verso, 2020.
FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014c.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014b.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014a.
GARLAND-THOMSON, R. Extraordinary bodies. New York: Columbia University Press, 1997.
GARLAND-THOMSON, R. Staring: how we look. Oxford: Oxford University Press, 2009.
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2007.
GILLIGAN, C. In a different voice. Cambridge: Harvard University Press, 2009.
GILLIGAN, C. Joining the resistance. Cambridge: Polity Press, 2013.
GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 2006.
GOODLEY, D. Disability studies: an interdisciplinary introduction. London: Sage, 2014.
GRANDIN, T. Thinking in pictures. New York: Vintage Books, 2006.
GRANDIN, T.; PANEK, R. The autistic brain. Boston: Houghton Mifflin, 2013.
HELD, V. The ethics of care. Oxford: Oxford University Press, 2005.
HIGASHIDA, N. The reason I jump. New York: Random House, 2007.
HOCHSCHILD, A. R. The managed heart. Berkeley: University of California Press, 1985.
HOCHSCHILD, A. R. The outsourced self. New York: Metropolitan Books, 2012.
HONNETH, A. Luta por reconhecimento. São Paulo: Editora 34, 2003.
HONNETH, A. O direito da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
JAHNKE, J. F. et al. Neurodiversidade, educação e família: discalculia, disgrafia e dispraxia como singularidades que demandam práticas pedagógicas inclusivas articulando escola e família. Revista DCS, 23(87), e4739. Disponível em: https://doi.org/10.54899/dcs.v23i87.4739 Acesso em 27 fev. 2026.
KITTAY, E. F. Learning from my daughter. Oxford: Oxford University Press, 2019.
KITTAY, E. F.; CARLSON, L. Cognitive disability and its challenge to moral philosophy. Oxford: Wiley-Blackwell, 2010.
LINTON, S. Claiming disability. New York: NYU Press, 2020.
MALHOTRA, R.; ROWE, M. Exploring disability identity and disability rights through narratives. New York: Routledge, 2013.
MANTOAN, M. T. E. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? São Paulo: Moderna, 2003.
MÁTTAR-NETO, J. A. Metodologia científica na era da informática. São Paulo: Saraiva, 2002.
MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec, 2007.
MINAYO, M. C. S.; DESLANDES, S. F. Caminhos do pensamento: epistemologia e método. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2002.
MORRIS, J. Independent lives? London: Macmillan, 1993.
MORRIS, J. Pride against prejudice. London: Women’s Press, 1991.
NOLEN-HOEKSEMA, S. Abnormal psychology. New York: McGraw-Hill, 2020.
OLIVER, M. Understanding disability. London: Palgrave Macmillan, 2009.
PAUL, R.; PELPHREY, K.; VOLKMAR, F.; ROGERS, S. Handbook of autism and pervasive developmental disorders. Hoboken: Wiley, 2014.
PERSPECTIVES ON INCLUSIVE EDUCATION. Inclusive education review. London: Routledge, 2015.
PRIZANT, B. Uniquely human. New York: Simon & Schuster, 2016.
PRODANOV, C. C.; FREITAS, E. C. Metodologia do trabalho científico. Novo Hamburgo: Feevale, 2013.
ROBISON, J. E. Be different. New York: Crown, 2011.
ROBISON, J. E. Look me in the eye. New York: Crown, 2008.
ROULSTONE, A.; BARNES, C. Working futures? Bristol: Policy Press, 2005.
SANTOS, A. N. S. dos. et al. “Como espelhos da alma”: refletindo a complexidade da reconfiguração da sociabilidade intrafamiliar a partir dos sujeitos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). CONTRIBUCIONES A LAS CIENCIAS SOCIALES, 17(7), e8937. Disponível em: https://doi.org/10.55905/revconv.17n.7-445 Acesso em 27 fev. 2026.
SANTOS, A. N. S. dos. et al. “Entre redes e pilares”: convergência da mediação pedagógica e tecnológica no Atendimento Educacional Especializado (AEE). CONTRIBUCIONES A LAS CIENCIAS SOCIALES, 17(9), e10161. Disponível em: https://doi.org/10.55905/revconv.17n.9-014 Acesso em 27 fev. 2026.
SAVIANI, D. Escola e democracia. Campinas: Autores Associados, 2008.
SAVIANI, D. Pedagogia histórico-crítica. Campinas: Autores Associados, 2011.
SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. São Paulo: Cortez, 2002.
SHAKESPEARE, T. Disability rights and wrongs revisited. London: Routledge, 2013.
SHAKESPEARE, T. Disability: the basics. London: Routledge, 2018.
SIEBERS, T. Disability theory. Ann Arbor: University of Michigan Press, 2008.
SILBERMAN, S. NeuroTribes. New York: Avery, 2015.
SINGER, J. Neurodiversity: the birth of an idea. Sydney: University of Technology, 2016.
SZATMARI, P. A mind apart. New York: Guilford Press, 2004.
TRONTO, J. Caring democracy. New York: NYU Press, 2013.
TRONTO, J. Moral boundaries. New York: Routledge, 1993.
WALKER, N. Neuroqueer heresies. Fort Worth: Autonomous Press, 2021.
WEBER, M. The methodology of the social sciences. New York: Free Press, 1949.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Revista DCS

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.
