CARTOGRAFIA DOS AFETOS E DAS AFETAÇÕES: ITINERÁRIOS FORMATIVOS DE UMA MÉDICA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE NO INTERIOR DA BAHIA

Autores

DOI:

https://doi.org/10.54899/dcs.v22i85.3982

Palavras-chave:

Medicina de Família e Comunidade, Cartografia, Atenção Primária à Saúde, Território

Resumo

Este artigo acompanha os afetos e as afecções que atravessam o trabalho e a formação em Medicina de Família e Comunidade (MFC) na Atenção Primária à Saúde, a partir da experiência de uma médica-preceptora em um município do interior da Bahia. Ao utilizar uma abordagem qualitativa, de perspectiva, inspirada em Deleuze e Guattari e nas contribuições da Saúde Coletiva brasileira, a pesquisa toma o território, o corpo e a escrita de si como dispositivos de produção de conhecimento. O material empírico envolve registros reflexivos, diários de preceptoria, notas de campo e memórias corporais, analisados hermeneuticamente. Os resultados evidenciam o território como espaço educativo e afetivo, onde visitas domiciliares, conversas e encontros comunitários provocam processos de subjetivação, desaprendizagens e formação sobre o Sistema Único de Saúde e seus princípios. Mostram, ainda, o corpo do trabalhador de saúde como território sensível e em constante transformação, atravessado por cansaço, alegria, impotência e esperança, exigindo práticas de autocuidado. A residência em MFC aparece como campo ético-político de coaprendizagem, no qual preceptoria e Educação Permanente em Saúde se realizam na micropolítica do trabalho vivo. A escrita cartográfica emerge, por fim, como gesto de resistência à burocratização do cuidado, possibilitando transformar o vivido em experiência, produzir pensamento e convertê-lo em ação. Conclui-se que o exercício da cartografia das práticas de trabalho na APS e a formação em MFC permite afirmar a produção do cuidado como prática clínica, política e poética, em que o verdadeiro aprendizado em saúde consiste em aprender a ser humano com o outro, e não apesar dele.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

ANDRADE, I. M. A territorialização no planejamento e na gestão do Sistema Único de Saúde: um relato de experiência. RevistaFT: Revista Científica de Alto Impacto, São Paulo, v. 121, p. 1–18, abr. 2023. ISSN 1678-0817. DOI: 10.5281/zenodo.7881904.

AYRES, J. R. C. M. Cuidado: trabalho e interação nas práticas de saúde. Rio de Janeiro: CEPESC, 2009.

BENEVIDES, R. Micropolítica e cuidado em saúde: a vida como potência. Rio de Janeiro: EPSJV/Fiocruz, 2021.

BRAGANÇA, I. F. de S. Pesquisa (auto)biográfica e formação docente: a escrita de si como prática de formação. Rio de Janeiro: UERJ, 2015.

BOTTI, I. S. A significação da humildade intelectual: considerações sobre seu valor epistêmico e a natureza conceitual. Polymatheia – Revista Científica, v. 17, n. 2, 2024. DOI: https://doi.org/10.52521/poly.v17i2.13018.

CECCIM, R. B. Educação permanente em saúde: descentralização e micropolítica do trabalho vivo. Porto Alegre: Rede Unida, 2018.

CECCIM, R. B.; FEUERWERKER, L. C. M. O quadrilátero da formação para a área da saúde: ensino, gestão, atenção e controle social. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, p. 41-65, 2004.

CECCIM, R. B.; FERLA, A. A. Educação e saúde: formação em ato e micropolítica do cuidado. Brasília: Fiocruz, 2020.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

ELLIS, C. The ethnographic I: a methodological novel about autoethnography. Walnut Creek, CA: AltaMira Press, 2004.

FEUERWERKER, L. C. M. Micropolítica e saúde: o cuidado é sempre encontro. São Paulo: Hucitec, 2019.

FOUCAULT, M. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GIOVANELLA, L.; MENDONÇA, M. H. M. de; ALMEIDA, P. F. de; ESCÓSSIA, L. (orgs.). Atenção Primária à Saúde e Estratégia Saúde da Família: fundamentos, práticas e desafios. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2021.

KASTRUP, V. A invenção de si e do mundo: uma introdução do tempo e do coletivo no pensamento de Bergson. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

LARROSA, J. Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

MERHY, E. E. Saúde: a cartografia do trabalho vivo. 3. ed. São Paulo: Hucitec, 2014.

PAIM, J. O que é o SUS. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2018.

PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2015.

PASSEGGI, M. da C. Entre a vida e a formação: pesquisa (auto)biográfica, docência e profissionalização. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 27, n. 1, p. 69-88, 2011.

RICOEUR, P. Tempo e narrativa: a configuração do tempo na narrativa. Campinas: Papirus, 1994.

SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.

SOUZA, E. C. de. Territórios das escritas do eu: pensar a profissão, narrar a vida. Revista Educação, Porto Alegre, v. 42, n. 3, p. 417-426, 2019.

Downloads

Publicado

08-12-2025

Como Citar

Santos, A. da S., Souza, M. C. de, & Oliveira, J. A. S. de. (2025). CARTOGRAFIA DOS AFETOS E DAS AFETAÇÕES: ITINERÁRIOS FORMATIVOS DE UMA MÉDICA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE NO INTERIOR DA BAHIA. Revista DCS, 22(85), e3982. https://doi.org/10.54899/dcs.v22i85.3982

Edição

Seção

Artigos